domingo, 8 de dezembro de 2013

OLIVEIRA, O CANALHA

Alto, magro, boca larga, barba por fazer e uma cicatriz que lhe riscava todo o peito. Esse era o Oliveira que se inspirava em Palhares, o personagem “canalha” de Nelson Rodrigues. Oliveira era daqueles que não perdoava nem as cunhadas. Quando perguntado sobre a causa daquela cicatriz extravagante bem no meio do peito raspado, desconversava. Acendia um cigarro (ele não fumava, era só charme de canalha) e dizia sofrer com mulheres de unhas grandes na cama. Na verdade, aquilo tinha sido uma tentativa homicida de um marido traído. O esporte preferido de Oliveira era espiar os decotes alheios.  Na mesa do bar, costumava assumir numa satisfação profunda:

-Sou canalha, compreende? Sou raro nos dias de hoje. Um canalha genuíno! 


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Em uma tarde quente de feriado, enquanto o marido da vizinha foi prestigiar a procissão da padroeira da cidade, Oliveira aproveitou e adentrou a casa do lado. Desabotoando cada botão e aos poucos revelando a cicatriz que ostentava, a vizinha não resistia ao charme do canalha e se entregava numa fragilidade de mulher apaixonada. No entanto, o que os dois não esperavam é que o marido enganado voltasse mais cedo. Sem fazer barulho abre a porta, suando na testa, pergunta sobre o traje a caráter da procissão:

- Mulher, cadê minha camisa vermelha e verde? A santa tá chegan...

Nem deu tempo de terminar a frase, flagrara os dois na cama. Seus olhos e garganta queimavam de ódio. Oliveira fornicava numa agilidade equina. Ainda demorou uns quatro a cinco segundos para o canalha perceber o marido numa cólera infernal na porta do quarto. Ao entender o que acontecia, Oliveira saiu correndo pelado, com uma destreza atlética subiu na janela e saltou para o telhado da casa.

Houve então a cena chocante. A procissão passava naquele instante e todos os fiéis pararam para observar o corpo magro de Oliveira, pelado se equilibrando, tentando subir no telhado. Alguns definiram a cena de “A versão masculina de Gabriela” personagem de Jorge Amado. As senhoras de idade, atônitas, repetiam em uníssono “Que indecência!”, as mulheres fingiam tapar os olhos, os homens esbravejavam enciumados, os homossexuais gostaram,  as crianças choravam ao ver aquela horripilante situação e cada um teve seu ato particular de estupefação ao visualizar numa posição desprivilegiada (de baixo pra cima) o corpo magro totalmente nu de Oliveira, o canalha.

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Dias depois numa mesa de bar, Oliveira estava sendo criticado por seus amigos quase como um coral de capela, todos classificavam que o canalha passara dos limites e que sua bandalheira vida o fazia um homem imoral, as margens dos padrões da sociedade atual. Em silêncio, o canalha só ouvia e quando todos calaram esperando suas palavras de defesa acendeu um cigarro, deu duas tragadas superficiais com um olhar distante fingindo reflexão, apagou o cigarro no cinzeiro, levantou-se e disse numa satisfação profunda:

- A virtude é bonita, mas exala um tédio homicida.


E foi em busca de mulheres casadas na ânsia de saciar seu desejo eterno de canalha. 


Moisés Couto 

segunda-feira, 5 de agosto de 2013

O ADVOGADO MASOQUISTA

Max Pinto era um renomado advogado da cidade, devido ao alto cargo que ocupava era seu dever passar uma imagem de homem sério e disciplinado. Fazia questão de cumprimentar a todos, mostrar sua imponência e índole cartesiana. Mas o que ninguém sabia era que o destemido Max tinha suas aventuras amorosas corriqueiras. Não tinha medo de nada, minto, a única coisa que o fazia perder o sono era a possibilidade de seu lustroso nome estar envolvido na bandalheira alheia. Por isso, suas aventuras eram sempre discretas e prudentes. Certa noite, que parecia ser apenas mais uma das diversões de Max com uma mulher qualquer, mudou sua vida.

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Enxugando o suor com um lenço do paletó que o advogado usara na última audiência poucas horas atrás, a mulher não poupou elogios:

- Você foi ótimo!

Max Pinto riu jocosamente.

Enquanto arrumava a bolsa para ir embora a mulher deixou surgir um chicote. Max ficou curioso, percebendo, ela tratou de fazer a propaganda:

- É um dos meus instrumentos de trabalho. Quer experimentar?

Max Pinto, passou alguns longos segundos com aquele chicote na mão, alisando-o com uma devoção única o advogado imaginou aqueles fios de borracha chocando-se contra seu corpo, jorrando suor e até gotículas de sangue. Ela pergunta:

- Posso bater?

Max tenta responder que não, mas a ânsia de descobrir o novo está inexplicavelmente incorporada. Segura o cabo do chicote e bate contra a própria mão, pensa e não resiste:

- Bate uma vez.

Foi atendido. O som, a dor, o prazer. Não se contentou. Alguns minutos depois, todo o dorso de Max Pinto estava rubro como as bochechas da timidez juvenil. O que surpreendera o destemido é que sentia prazer com cada beijo do chicote em suas costas. Sentiu um prazer sublime e inédito.

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Após o episódio, toda a índole de Max estava prestes a sucumbir.Com desejo de apanhar cada vez maior, o advogado estava inquieto. No trabalho o rendimento caiu, o apetite diminuiu, humor mudado. Max Pinto estava inquieto.

Não aguentando de tanto desejo enrustido, decidiu pegar mais uma mulher da vida para sentir o prazer novamente. Passando na Avenida onde as rameiras costumavam ficar, Max Pinto convidou qualquer uma dando a ordem:

- Sobe na moto!

Apaixonado por sua moto. Max tinha prazer em sentir o vento quente lamber sua face, só que naquele momento, nada o satisfaria a não ser o masoquismo.

Chegando no mesmo quarto de motel onde dias atrás o advogado apanhara pela primeira vez, tinha pressa. Antes de tudo, ligou para a atendente do motel e pediu o tão desejado chicote. Ansioso, enquanto despia-se detalhou para a companheira da vez o que desejava. No primeiro momento a prostituta frustrou-se ao saber que não haveria a fornicação como imaginara, porém o advogado bem sucedido pagou antecipado e a companheira dos adúlteros se satisfez.

Quando lhe foi entregue, não conseguiu segurar o sorriso. Segurando o chicote envolto de uma borracha preta perdeu todo o pudor. Despiou-se, ajoelhou-se entregando o objeto pediu, sem pusilanimidade, para que a mulher batesse na suas costas nuas:

- Bate, com toda a sua força! – ordenou.

E teve o desejo atendido. Uma, duas, três... Max se deliciou com aquelas lambidas do chicote em seu dorso. Uivava de prazer. Enfim teve seu desejo realizado.

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Ao ir embora, Max Pinto guiava a moto apreensivo. Pensava na compostura, na índole que acabara de perder. Tinha medo de que todo o seu sucesso profissional evaporasse como espumas ao vento (Com licença, Fagner). Tinha certeza de que a mulher que estava na garupa da moto espalharia por toda a cidade o segredo do renomado advogado. E aquilo lhe martelava a cabeça: “O advogado que gosta de apanhar!”. Só pensava nas manchetes, nos comentários, nas fofocas, nas galhofas. “O advogado masoquista!”. Repetidas vezes aquilo o perturbava “O advogado que gosta de apanhar”. Então, na rodovia a mais de 130 quilômetros por hora, Max Pinto traçou o próprio destino, invadiu a contramão e bateu bem no meio dos faróis incandescentes e ardentes de um caminhão que vinha em direção contrária. Ali, deu seu último urro de dor e prazer, a prostituta morreu em silêncio.  

Moisés Couto

terça-feira, 7 de maio de 2013

ALMEIDA


Nas dezenas de viagens que fiz entre minha querida Mossoró e a capital pernambucana, já vivenciei várias situações embaraçosas, e por que não dizer embaraçosíssimas? Já conheci e não conheci várias personalidades que iam à cadeira ao lado. É inevitável trocar duas palavras. Um “licença” ou um “desculpe”. Mas a última companhia de viagem foi de uma excentricidade singular. Conto-lhes.

Antes de propriamente sentar na cadeira, ainda conferindo o numeral impresso no bilhete e na poltrona, o homem atrás de mim tratou de se apresentar sem cerimônia, ou por outra, com muita cerimônia:

- Opa, companheiro. Com licença.

E antes que eu me virasse pra ver o rosto da figura, declarou seu nome numa satisfação e orgulho profundo, como se fosse ele mesmo que escolhera:

- Almeida, muito prazer.

O primeiro nome eu dispenso, nem me lembro. Minto, me lembro sim, mas não importa. Esse sobrenome de personagem principal das tragédias de “A Vida Como Ela É” já traz um efeito de jornal dos anos 60.

Apertei a mão de Almeida, ou melhor, ele apertou a minha, com virilidade juvenil, apesar dos seus cinquenta e poucos anos. Tratou de iniciar o bate-papo e como toda conversa começou pelas perguntas primárias. Nome, idade, o que fazia da vida, de onde vinha, pra onde ia, etc etc. Eu, com as confissões de Nelson Rodrigues na mão, não podia ler. O falastrão não deixava, comecei a ficar impaciente.

Meu companheiro de viagem falava alto, dionisíaco. Falava tanto e tão rápido que se ruborizava, limpava o suor da testa com o dorso da mão. Mas Almeida não era um cara qualquer. Sua vida é recheada de superação e vitória. Ouvi aflito as tribulações da vida de Almeida e quase comemorei junto dele suas glórias. Com sua capacidade intelectual invejável, Almeida discorria histórias de vida exemplares que guardarei em minha memória. Já me sentia a vontade ouvindo o entusiasta.

Em dado momento Almeida parou. Assim como inesperado tinha sido o início da conversa, inesperado foi seu término. Almeida envolto de um lençol alvo-azul dormiu um sono perene.  E depois disso a viagem foi tranquila e silenciosa como desde o início eu pretendia. Porém, quando o silêncio e a escuridão tomaram conta da viagem, senti falta das histórias impressionantes da vida de Almeida. Imaginei a improbabilidade de tê-lo como companheiro de viagem novamente, e por isso pensei em acordá-lo e pedir que contasse mais e mais histórias, mas não tive coragem de interromper o sono sereno de Almeida, que de tão profundo, nem parecia mais haver vida naquele corpo. Ele descansava do trabalho árduo de convencer o desconhecido companheiro de viagem, que a vida é uma viagem sublime onde não há espaço para silêncio, escuridão e solidão.

Moisés Couto

sábado, 2 de fevereiro de 2013

FILOSOFIA SELETIVA E MUTÁVEL


A filosofia representa o suprassumo da capacidade intelectual humana, porém isso vale apenas para aqueles que têm a capacidade física para tal. Sim, é injusto que algumas pessoas possam adentrar nas profundezas mais distantes do pensamento humano enquanto outras não compartilhem do mesmo direito. Esses que não podem, por favor me entendam, me refiro àqueles que não conseguem. Não conseguem por fatores puramente físicos, deficiências. Os que não gozam de filosofia por preguiça ou comodismo não vêm ao caso.

A nossa vã filosofia (me permitam o plágio sheakespeareano) não é acessível a todos e por causa disso não pode ser considerada como a principal das ciências. Eis o que eu quero dizer: se um cidadão tem um nível de serotonina baixo, ele pode entrar em um estado depressivo e ter uma linha de pensamento totalmente diferente se caso ele estivesse com esse mesmo neurotransmissor em nível considerado normal. Ou seja, a pessoa em questão pode não ter a capacidade de “filosofar” porque o seu cérebro não permite tal ação. Só o condiciona a pensamentos autodepreciativos, etc.

Ou por outra, vejamos outro exemplo da debilidade da filosofia: se hoje ostento um determinado pensamento sobre determinado aspecto, amanhã eu posso não mais compactuar a mesma convicção, pelo simples fato de, por exemplo, minha serotonina estar diminuída. Compreendem onde quero chegar? Uma ideologia pode ser mudada não exclusivamente por argumentos, mas pode também ser modificada por um aspecto físico! Um simples e abjeto fator. Que ciência é essa, donde suas verdades são tão fortes quanto um pudim? Tudo depende da fragilidade de um órgão. Se minha saúde não estiver em condição considerada perfeita, significa que posso ter uma deficiência de algum neurotransmissor e isso me fazer mudar convicções do dia pra noite.

Observando bem, concluo que a filosofia sai do abstracionismo inatingível e entra no âmbito do concreto (Comunicação nervosa). Entra no âmbito do físico, do material, do objetivo, do estúpido. E se Platão, Sócrates, Descartes e todos os famigerados filósofos que habitaram na terra tivessem doses diferentes de neurotransmissores quando “filosofaram” para a história? Seus pensamentos seriam outros, talvez eles nem estivessem sendo citados nesse singelo texto. Em suma, a filosofia está no mesmo barco das demais ciências. O barco do exato e da objetividade. No barco daqueles que necessitam de algo concreto para sobreviver. Num reles barco qualquer.

Moisés Couto

FRASE

O ato mais covarde e, ao mesmo tempo, mais sublime do ser humano é correr para o colo da mãe nos momentos de aflição.


Moisés Couto

sábado, 15 de dezembro de 2012

A VIÚVA RODRIGUEANA


O marido crispava-se no leito de morte. Sentia que aquelas batidas do coração descompassadas e cada vez mais lentas eram os últimos sinais de vida. Sua mulher agarrava sua mão com força, como se aquilo pudesse segurar a vida que esvaía de seu corpo pálido e rígido. Ele morreu lamentando-se do que não fizera com a premissa de deixar para depois. No último sopro de vida, inclinou a cabeça em direção à esposa e, com um olhar rútilo, viu a silhueta da mulher, a quem por mais da metade da vida dedicou seu amor único e ululante, desaparecer lentamente.

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Depois de todo o cerimonial fúnebre, ao chegar a casa uma amiga fogosa tratou de consolar a viúva:

- Percebeste como os homens te olham?

- Do que você está falando?

-Tu sabes o quanto os homens te desejam? És linda. Até no velório eu percebi que os homens olhavam diferente pra você.

- Por tudo que é mais sagrado, Carminha! Tu não tens vergonha? Meu marido, meu homem, meu amor está morto. Nunca mais vou amar, compreende? Nunca mais!

- Mas você precisa de alguém pra cuidar de ti. Toda mulher precisa de um amor. Quando um se vai, outros chegam. Isso é a lei da vida. É batata!

- Não preciso mais de homem nenhum. Eu mereço sofrer, porque meu amor morreu. Dentro de mim não há mais amor, nem nunca mais haverá. De uma vez por toda, não fale mais disso. Eu morri junto com meu marido!

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Durante dois dias, a viúva carregou consigo o fardo da perda. Sentia um peso em cima de seus ombros que de repente escorria por todo o seu corpo até as plantas dos pés. Sentia nojo de seu próprio corpo. Nojo de carregar consigo o seu corpo de mulher desejável, desenhado por curvas que despertavam os olhares cobiçosos de qualquer homem são. Nojo de carregar suas partes íntimas que um dia a fizera sentir prazer. Sofria por ter tido prazer um dia na vida. Chorava todo o tempo e, para si, chorar era um alívio. Seus olhos já estavam secos, não havia mais lágrimas para lamentar a perda do amor de sua vida.

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Mas eis o que quero dizer: Quarenta e oito horas depois, em uma manhã de domingo ela acordou mais viva. O peso que outrora não a deixava levantar da cama sumiu. Colocou um vestido preto que ainda lhe caracterizava como viúva, no entanto, era mais curto, decotado e rente ao seu corpo o que ressaltava suas belas curvas. Saiu nas ruas e não havia mais receio de si. Sentiu-se bem em perceber que despertava o desejo masculino e a inveja feminina. Atraía desde o tarado promíscuo das esquinas até o casto que se ruboriza com um olhar feminino.  

- Que o dia seja tão belo quanto a dama!

E literalmente tiravam o chapéu em reverência a beleza da viúva.

Passou num mercado e pediu que levassem o leite até a sua casa:

- Seu Manoel, por favor, peça para alguém levar um leite bem gelado até a minha casa. Muito bem gelado, compreendeu? Porque o calor de hoje está de derreter catedrais.

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Alguns minutos mais tarde, bate a sua porta o entregador do mercadinho. Um moço forte e viril. A viúva não conseguia disfarçar seu olhar que ia dos pés a cabeça do moço, despertando em si a libido adormecida. Não resistiu muito tempo e logo se entregou aos prazeres carnais com o entregador de mercadoria. Pela janela, Carminha, a amiga fogosa, via a viúva roçando os lábios com o homem másculo, gozando das tentações lascivas.

Uma velha gorda que vinha da feira carregando uma sacolinha amarela com ração para peixe, viu a obscenidade na janela e reprimiu com veemência:

- Acabou de perder o marido e já está fazendo bandalheira sem um mínimo de pudor!

E fez uma careta que conseguiu deixa-la ainda mais feia.

- Querida – Carminha respondeu com uma voz mansa e irredutível - A dor da viuvez dura quarenta e oito horas, compreendeu? Fugazes quarenta e oito horas!

Moisés Couto

terça-feira, 18 de setembro de 2012

A TRAÍDA RODRIGUEANA


- Me trai!

Era o que Antonieta dizia a si, em meio tom, enquanto deslizava a esponja úmida no prato sujo. Nos últimos dias, seu marido mudara de comportamento. Frio e rígido como uma pedra de gelo, ele não dirigia mais palavras de carinhos à esposa, na verdade, ele diminuiu muito o tempo de qualquer simples conversa com a mulher.  Ela, que esbanja uma feminilidade extrema, percebera bem a mudança do esposo. Resolveu desabafar com a vizinha e melhor amiga:

- Ele me trai! Eu sei que me trai.

Antonieta deixava escorrer uma lágrima que traçava em seu rosto macio um caminho triste do olho até seu lábio inferior trêmulo. Mas a vizinha se dispôs a consolá-la.

- Amiga, que mal há? Pois fique sabendo que eu descobri há algum tempo que meu esposo me trai e, de lá pra cá, minha vida melhorou muito.

- Como assim?!

E a vizinha retrucava:

- Nunca ouvistes aquele ditado: “Quanto mais infiel, melhor o marido”?

- Você só pode estar louca!

- Não, amiga. A infidelidade só ajuda no matrimônio conjugal. É batata! Ouça bem, depois que descobri que meu marido me trai, ele passou a ser um doce, compreende? Enche-me de presente, de carinho, de afago. Nunca mais esqueceu meu aniversário. Digo mais, nunca mais esqueceu nossa data de casamento. Acredita?

Antonieta ouvia a tudo atônita. A vizinha continuou:

- Olha, tá vendo esse vestido?

- É lindo!

- É. Foi ele quem me deu. Ele agora é um doce, compreende? Um doce! O melhor marido do mundo!

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Mais tarde, em casa, enquanto o marido dormia, Antonieta o olhava. Sentia saudade dos tempos em que ele fora carinhoso, amável, cortês, etc. Ameaçou passar as costas de sua mão no rosto dele, mas desistiu. Naquele momento teve medo de que o amor entre eles estivesse acabando. Nos dias subsequentes, a dúvida da possível traição só aumentava.

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Depois de alguns dias de martírio, Antonieta já não aguentava mais a indiferença do marido. “A indiferença é pior do que tudo!”. Criou coragem e resolveu tomar uma atitude. Naquela noite, quando o marido chegasse do trabalho, ia de uma vez por toda acabar com aquela dúvida cruel e perguntar inopinadamente se ele tinha outra. Todavia, quando o marido chegou do trabalho, parecia ter outro rosto. Com um sorriso estampado e olhos brilhantes ele olhava para Antonieta. E antes que a mulher pronunciasse qualquer palavra, o marido disse:

- Antonieta, meu amor. Trouxe uma lembrancinha para você.

Antonieta vasculhou a mente buscando se aquela data era um dia especial. Verificou e constatou que não se tratava de absolutamente nada. Aniversário dela, aniversário do casamento, data do primeiro beijo, enfim, nada! Era só mais um dia na vida terrena de cada um. O marido interrompeu o raciocínio dela:

- E então, meu amor. Não vai querer?

Antonieta voltou à realidade.

- Sim, sim. Quero. O que é?

O esposo abriu uma caixinha envolta de um felposo veludo azul marinho. Dentro havia uma colar de ouro brilhante como os raios de sol nordestinos do meio dia. Ele com um sorriso incansável esperava uma reação da mulher. Antonieta balbuciou:

- Mas hoje não é nenhum dia especial.

- E daí? É só um presente que queria te dar.

- Mas assim, sem mais nem menos?

Ele foi enfático:

- Sim. Você merece!

Antonieta pôs o rosto do marido entre suas mãos e o beijou como na lua de mel. Suas lágrimas salgavam o beijo que parecia eterno. O marido foi para o banho e Antonieta correu para o telefone. Discou para a vizinha amiga.

- Amiga! – sua fala era entusiasmada, porém se segurava para não falar tão alto, não queria que o marido a ouvisse – estou tão feliz!

- O que há, Antonieta?

E ela com um rosto transfigurado de alegria e em meio a lágrimas de felicidade, gemia aquelas palavras com um prazer quase orgásmico:

- Me trai, compreendeu? Ele me trai!

Moisés Couto

terça-feira, 31 de julho de 2012

RELÓGIO



Possuo um relógio na minha sala. Relógio de parede que reina absoluto sobre o vão de entrada do meu pequeno apartamento. Sua posição de tão estratégica, me lembra o Rio Grande do Norte na segunda guerra mundial. Meu relógio vigia e observa todos que já entraram, saíram e ainda os que vão entrar e sair pela porta principal. Sabe de tudo que ocorre aqui dentro, mas guarda só pra si. As vezes ele me parece planejar algo diabólico contra alguém (Será eu?!) ou contra algum relógio digital, seu maior inimigo. A autenticidade desse meu relógio não para por ai. Ele só me mostra as horas quando e como ele bem entende. Por exemplo: Fim da tarde, o sol exibe seu crepúsculo apoteótico, chego da cidade, adentro a sala, olho para ele, que, obstinado e com os ponteiros bem eretos me exibe um retesado 11h05min. Parece querer despertar em mim uma overdose de curiosidade, esnobando a hora exata que, dentro desse cubículo onde vivo, só ele sabe. Então, o xingo como de corriqueiro, mas ele, imponente, parece não me dá ouvidos. Depois de semanas parado, rígido, marcando uma mesma hora que discorda completamente com o que mostra a geografia lá fora, o pulha resolve recomeçar a mover seus ponteiros, como se necessitasse hibernar e só depois, quando julgasse apto, retomasse o trabalho. “Vagabundo” - penso alto. Mas, vos escrevo para selar a paz que tive com meu amigo do tempo há poucos minutos. Depois de chegar da cidade e vê-lo estático marcando 3h15min com ponteiros semelhantes as pernas de uma acrobata olímpica, não o xinguei. Diferentemente dos outros dias, me brotou uma autorreflexão aguda. Analisemos juntos: Quem estipulou que seria naquele momento 18h? Pensando bem, meu querido relógio parece está certo, pois ele não subestima-se a trabalhar e a seguir um horário onde terceiros, que nem conhecemos, estipularam. É isso! Burro daquele que cumpre horários pré-estabelecidos, escravos de segundos, minutos e horas, que trabalham e descansam pontualmente quando um relógio qualquer ordena. Faça você mesmo seu horário. Trabalhe e descanse quando quiser! Liberte-se da ditadura temporal capitalista que lhe ordena e torna de você um ignóbil seguidor do culturalismo europeu e estadounidense. Obrigado meu relógio!


Espera um pouco... O que?! Esse safado está marcando 10h10min, seus ponteiros simulam lábios e ele está rindo da minha cara. Eu sou um asno mesmo. Só eu pra cair na lábia desse relógio cínico. Esqueçam o que eu disse e voltem aos seus horários habituais.


A propósito... Que horas são?          

Moisés Couto  

quinta-feira, 12 de julho de 2012

O LARÁPIO


Recentemente tive a casa invadida por um ladrão. Depois dessa noite, não tive mais sono tranquilo, pois uma sensação de desproteção e desvantagem enquanto tentava dormir, me consumia. Deitado em busca do sono, sentia-me totalmente impotente. Refletia de mim para mim: “Agora, qualquer larápio pode entrar aqui e fazer o que bem quiser diante de meu corpo desacordado”. Sentia-me nu em um campo de batalha troiano. Até os índios de 1500 estavam protegidos, apesar de nus, das armas que cuspiam fogo dos europeus. Eu não. Uma casa invadida por um desconhecido significa que o único lugar seguro do mundo foi sabotado.

Na noite do ocorrido, eu o vi. Após meus gritos de ordem: “Saia!”, recheado de palavrões chulos que foram proferidos institivamente, o pulha foi saltando telhados de casas vizinhas, como um gato irresponsável de noites inquietas. Corri atrás do meliante, ruborizado e com sede de vingança, disposto a enxotá-lo. Mas não consegui. Prometo em textos futuros descrever como tudo se sucedeu.

Mas eis o que quero dizer: Noite passada estava eu em uma mesa de bar com os fiéis amigos da sexta feira à noite. De repente, ele surge, o reconheci a primeira vista, primeiro de costas, única imagem que tinha do furtador. Não tive resquícios de dúvida e pensei comigo: “É o larápio!”. Comentei com os amigos, e um mais exaltado o chamou para perto da mesa, ele se aproximou e eu pude ver seu rosto. Era um adolescente, raquítico de pequeníssimo porte. Braços e pernas finos. Orelhas grandes os olhos, sem vida, pareciam não ter foco em nada. Uma fina penugem no buço explicitava sua adolescência. Um queixo proeminente que dava a criaturinha o famigerado apelido, no diminutivo. Como ele realmente era: Um diminutivo de homem.

Na presença do ladrão, meu amigo divagava, nem me lembro do que se tratava. Pra mim e para o larápio, o que realmente acontecia ali era um encontro que se desenhou e que poderia ser trágico dias atrás.

Ele me reconheceu e eu o reconheci, e só. Não houve ali, frases, nem sequer uma palavra proferida entre nós. Eu apenas o olhava e ele com vergonha do comportamento hostil de dias atrás, com vergonha de ser quem é, olhava pra baixo ou para o horizonte. Reitero, seu olhar não tinha foco. Aquele é um ser à margem da sociedade. Sem pai, mãe, irmãos, sem alguém que tenha compaixão dele, que está putrefato pelo mundo das drogas. Mais do que tudo, um ser sem sociedade.

A situação implicou em um mundo de conversas mudas. Tiver vontade de fazer-lhe perguntas: “Como ele entrara na minha casa?” “O que sentiu?” Tive desejo de ameaça-lo: “Se entrar lá de novo...” Mas não. Não verbalizei absolutamente nada. Enxerguei naquele pobre menino uma consequência deplorável de uma sociedade que o exclui.

Até que ele foi embora, e assim como em um mundo selvagem, não trocamos verbos, mas apenas por uma vaga troca de olhares e a sensação da presença de um perto do outro, ele percebeu que não deveria mais pisar no meu lar, no meu porto seguro. 

Moisés Couto

segunda-feira, 9 de julho de 2012

FIM DA ABSTINÊNCIA


Um mês fora de casa, quatro semanas sem essa sensação, trinta dias de saudade. Depois de todo esse tempo de abstinência, ao te reencontrar, não resisti e te toquei. Não levei em consideração pudor, vergonha ou qualquer embaraço daquela cena. Apenas fui ao seu encontro e te toquei, beijei, acariciei, cheirei o cheirinho de menta que emana de suas entranhas. Lá onde eu vivo - distante de ti - tem outros tipos de você, mas não tenho liberdade de fazer em terceiros o que faço com você e nem se tivesse o consentimento de outros, não me arriscaria a te trocar. Eu quero só você. Lanço o convite: "Vamos dá uma volta por ai, quero que todos nos vejam juntos novamente." Você sem titubear aceita, numa passividade feminina extrema. Agora estou dentro de ti, sentindo a paz que me cerca. Estou sentado, na posição que mais gosto. Desconsidero qualquer impressão que tenham desse texto e repito sem pusilanimidade, estou em minha posição preferida e dentro de ti. Que ótima sensação! Um simples toque e você se treme por completo, parecem espasmos do ápice sexual. Em êxtase, levanto minha perna esquerda, pressiono a embreagem engato a primeira marcha e saímos vagarosamente. Que saudade eu estava de dirigir (guiar) meu carro.


Moisés Couto

quinta-feira, 17 de maio de 2012

QUÉTI


Quando nós somos alunos do ensino primário, fundamental e até médio, somos tão ineptos ao ponto de pensar que temos autoridade suficiente para dizer que tal disciplina ministrada em sala de aula nunca vai servir para a vida futura. Balela juvenil. Desde que entrei em um programa de mestrado me arrependo com veemência cada uma dessas palavras tolas que pronunciei. Principalmente à respeito da velha e boa matemática, com todos seus gráficos e cálculos que lido hoje, como era bom ter me dedicado um pouco mais a tal disciplina. Enfim...

Hoje, tive uma grande nostalgia ao ler mais um corriqueiro artigo em inglês. A duras penas, estou lendo e entendendo alguma coisa, outras deixando passar desentendidas, quando de repente surge a palavra “Cat”. O assunto tratava de gatos descerebrados, mas o que realmente me fez pasmar e parar foi a memória que imediatamente veio em minha mente. Exatamente o dia em que eu aprendi tal palavra.

Se minha boa memória não falha, o ano era 1995, primeira série do ensino primário. Aula de inglês. A professora chega e comunica que teremos a inovadora aula de inglês. Eu na minha inocência de criança pensei logo o que sempre pensava quando pressentia o início de assuntos “difíceis”, como separação de sílaba e ter que aprender que o “M” vinha sempre antes do “P” e do “B”. “Nunca vou aprender isso”, matutava em um desapontamento covarde - Ainda guardo um pouco dessa insegurança que me faz tartamudear até hoje - Então, quando abro o livro na página determinada, aparecem dois animais sorridentes, um gato e um cachorro, e em cima escrito seus respectivos nomes traduzidos para a língua inglesa: “cat” e “dog”. Bastou, não precisava a professora falar mais nada, me bateu uma felicidade inenarrável, que depois disso só lembro-me de chegar a casa e correr para contar ao meu pai.

- Pai, sabe como é gato em inglês?

E meu pai numa resposta desinteressada:
- Hum...

- É “quéti”.

Pronto, nunca mais me esqueci de tal aprendizado que julgava até poucas horas atrás, desnecessário e irrelevante. Mas não, como já é sabido, nenhum conhecimento é inválido. E hoje, alguns anos mais tarde, senti a importância de aprender tal palavra, na inocência de minha série primária e na premência de minha carreira profissional.

Moisés CouTo

sábado, 11 de fevereiro de 2012

FRASE

Entre o ócio e o ópio uma letra separa o lícito do ilícito, porém em ambos o embrutecimento vigora.


Moisés CouTo

terça-feira, 10 de janeiro de 2012

TRISTE FIM


Pela primeira vez na vida Policarpo sentiu aquela sensação horripilante. Acordou, mas não despertou. Depois de sair do estado de sono, não conseguia mover um músculo sequer, senão suas pálpebras, o que o manteve com os olhos arregalados, tentando entender o que acontecia. E assim, passou alguns minutos até que sua esposa percebeu a estranheza da situação, afinal, Policarpo costumava levantar cedo. Ao ver o marido de corpo teso e olhos esbugalhados, caiu nos prantos ao pé da cama. Aquilo só aumentou a aflição de Policarpo que não estava morto, mas nada podia fazer. Mal sabia ele que estava a sofrer de um raro distúrbio, a catalepsia (ou paralisia do sono) que implica em imobilidade passageira dos músculos. Sua esposa só teve forças para chamar os familiares e iniciar o funeral. E rapidamente Policarpo estava dentro de um caixão. Mentalmente ele gritava, mas nenhum sôfrego gemido saía de sua boca, ele não conseguia se mover e mesmo aflito, nenhuma lágrima molhava seu rosto. Tentava, sem êxito, provar que estava vivo e não morto. A cada parente e amigo que lhe olhava, Policarpo tentava demonstrar sua viveza, porém com fracasso. De repente, para aumentar ainda mais o desespero de Policarpo, uma cunhada apressada já marcara o enterro para dali à uma hora, e o vivo-morto agonizou tenebrosamente cada segundo daquele funesto. Já no cemitério, prestes a ser colocado na cova, sua esposa lhe beija a testa e Policarpo na última tentativa de evitar o pior grita mentalmente e tenta se mover com todas as suas forças. Sem sucesso! E então, ele é colocado na vala e coberto por areia úmida. Terminado o serviço dos coveiros, todos vão embora comentando da bondade de quem para eles acabara de morrer. Após o último parente fechar o pesado portão do cemitério, Policarpo até que enfim consegue se mover e despertar daquela tormentosa acinesia. E agora se ver preso dentro de um angustiante caixão. Grita, esperneia, esmurra, chora, mas o portão estava fechado e todos já foram embora. E novamente ninguém conseguiu perceber o sofrimento de Policarpo. E assim ele morreu, em um vagaroso, sufocante e agoniante padecimento. Triste fim de Policarpo, diria o outro.

Moisés Couto

segunda-feira, 19 de dezembro de 2011

O MORTO


Há poucos anos tive a oportunidade de conhecer a cidade mais bela do Brasil. Ah, o Rio de Janeiro e todas suas belezas naturais. Mas, foi lá onde passei umas das situações mais embaraçosas da vida.

Estava a conhecer a Praia Vermelha. De prestígio bem menor do que a inexpugnável Copacabana. Uma praia de pequena extensão, limitada por dois grandes morros em suas extremidades (Urca e Babilônia). O meio de semana e o dia nublado talvez espantasse o público da praia. Havia pouquíssima gente. Alguns caminhando em um pequeno calçadão e uma turma de seis ou sete jovens jogando voleibol descontraidamente nas areias. Tudo parecia naturalmente estável até que um fato me chamou bastante atenção. Sobre o pequeno calçadão daquela praia havia um homem deitado cabulosamente. Envolto de um pano preto que lhe cobria dos joelhos até as sobrancelhas, deixando-se mostrar sua testa enrugada, o que transparecia seus quarenta e poucos anos. Um homem deitado, imóvel, insólito bem no meio de um calçadão de uma praia paradisíaca. A estranheza daquela cena não despertou em mim outra dúvida senão: “Será este um homem morto?” Perguntei reciprocamente sem emitir som e me aproximei daquele corpo estendido. Meu primo que me acompanhava na então viagem turística, fazendo jus a idade mais velha, alertou-me com espírito de proteção: “Se afasta, vai que ele acorda e te ver ai perturbando-o, pode ser perigoso”. Afastei-me e a dúvida só aumentou. Passei, atônito, alguns minutos observando o homem e pensando: “Não é possível, deve estar dormindo, ou será morto? Não tem como ser um morto no meio de uma praia do Rio de Janeiro, um corpo sem vida ficar aqui assim, ao léu. E toda essa gente jogando vôlei, caminhando e passando ao lado dele, não percebeu? Morreu de que? Fome? Sede? Uma bala perdida rasgou seu peito? Morte “morrida” ou morte “matada”?” Tive um momento de lucidez: “Onde estou com a cabeça? Não tem a menor condição desse homem ser morto. Melhor sair de perto, se não ele acorda e pode ser realmente perigoso, afinal o Rio de Janeiro sabidamente é muito violento".

Alguns dias depois, já no conforto de minha cidade natal assisto o tele jornal mais visto da emissora mais famosa do Brasil e surpreendentemente vem a notícia. As imagens da praia e do homem sobre o chão envolto do pano preto que agora passavam na televisão ainda eram muito frescas em minha cabeça. Perplexo, acompanhei num misto de surpresa e ansiedade a notícia dada por uma, sempre, libidinosa jornalista da Rede Globo:

“Descaso! Homem morto passou dois dias envolto de um pano preto em plena Praia Vermelha no Rio de Janeiro, sem ser retirado pelos órgãos públicos competentes e numa impressionante indiferença alheia. Onde está o comportamento humano para com o próximo? Por onde anda o respeito aos direitos huma....”

Minha cabeça se desprendeu da notícia anunciada na televisão e eu só pensava em uma coisa: “Pasme, aquele realmente era um homem morto”.


Foto: Michel Filho


Moisés Couto

sábado, 3 de dezembro de 2011

PORTUGUESES ESPERTOS


Nunca concordei com esse comportamento, por parte de nós brasileiros, de ofender os portugueses de “burros”. Sinceramente, nunca os vi fazendo asneiras. No máximo, as mesmas estupidezes que todo país compartilha. Um período de crise, um chefe de estado mal eleito, um escândalo de repercussão mundial, enfim. Já ouvi anedotas surreais a respeito dos portugueses, de atitudes ignorantes inaceitáveis que nem o mais palerma da terra poderia cometer. Eu na pele deles ficaria bem tempestuoso. Mas, pensado bem, enquanto chamamo-los de “burros” eles nem se incomodam, imagino que matutam para si a história de quinhentos anos atrás que, na verdade, fazem deles os legítimos zombadores e de nós os verdadeiros zombados.

O país deles invadiu o nosso, mudou toda a nossa cultura e crença da época, fez toda população trabalhar para encher os bolsos de seus mandatários e ainda tiveram conjunção carnal com nossas esposas na nossa frente, que distraídos, nem reclamávamos, pelo contrário, ficávamos pacatos admirando-nos de fronte a um espelho manchado de imundície europeia que contaminou toda a nossa pureza indígena. Chamá-los de "burro" me parece uma forma de atingir de alguma forma quem nos fez mal, porém sem sucesso, assim como crianças birrentas que tentam atingir o chacoteador mais velho, ou mulheres abandonadas que passa em frente ao antigo caso acompanhada de um amigo gay tentando fazer ciúme a quem não te ama mais - impossível.

Deixemos os xingamentos de “burros” de lado, vamos baixar nossas cabeças e fingir que não conhecemos essa gente cruel e selvagem que estuprou nossas tataratataratataratataravós.  

Moisés CouTo  

domingo, 30 de outubro de 2011

FRASE

O corpo humano é tão perfeito e complexo que os ditos "normais" eram para ser aqueles que possuíssem um terço de sua fisiologia completa.


Moisés CouTo



sexta-feira, 21 de outubro de 2011

FIM DO MUNDO – FALHA

Era chegado o dia mais esperado do ano de 2012. O dia em que os cálculos ininteligíveis cravavam o fim da espécie humana. O mundo estava em caos, esperando pelo pior. Ao amanhecer tudo parecia tranquilo, a temperatura estava normal, até um pouco mais fresca. Mas a população ignorava as condições ambientais e só pensava no pior. Os bilionários do planeta já estavam indo para à lua. Como iam viver lá? Eu também não sei. Mas iam com a esperança de vida em seus corações aflitos. As avenidas de todas as cidades do mundo estavam iguais. Pareciam grandes formigueiros, a população no meio da rua, tribulação aflorada. Todos só pensavam em sentir o último prazer de suas vidas, por isso, as pessoas começaram a fazer tudo o que tinham vontade, e então, supermercados foram saqueados, lojas depredadas. Mortes e abraços caminham juntos nas ruas engarrafadas por astros imóveis. Houveram-se até estupros e relações homossexuais à luz do dia. Um funcionário de uma multinacional qualquer, cansado de trabalho escravo resolveu se vingar, depois de beijar uma linda mulher ainda saiu gritando: “Diz pro seu marido enfiar a empresa dele no **”. Uns aplaudiam outros choraram, outros nem ligaram. Enquanto isso as polícias militar e civil digladiavam entre si, exibindo suas armas, mas disparando apenas insultos. As igrejas estavam lotadas de seus fiéis corriqueiros e de visitas esperançosas por salvação, os arrependidos dos 45 minutos do segundo tempo. Velhos insanos gritavam em praça pública jargões que ninguém ouvia. Coisa do tipo: “Eu sabia que era hoje!” – acho que era isso, também não prestei atenção. No Senado a situação brigava com a oposição e vice-versa. Os humoristas aproveitavam o fim do mundo para fazer piadinhas do desespero dos outros sem temer processos judiciais subsequentes. Os artistas preferiram viajar para o primeiro mundo, afnal, fim dos tempos ao lado do relógio Big-Ben, Torre Eiffel, ou Estátua da Liberdade seria elegante, mais semelhante com os filmes de Hollywood. Os viciados da cracolândia fizeram o de sempre, consumiram toda a droga possível, como se fosse o último dia de suas vidas. Nos hospitais públicos, não havia mais pacientes, todos queriam morrer em casa longe daquele inferno pré-morte. E assim, cada tribo fazia o que sempre almejou.

Contudo, o dia passou e o mundo não acabou.  E no dia seguinte todos foram trabalhar com a vergonha que lhes forçavam o cabisbaixismo, ninguém tinha coragem de olhar nos olhos do outro. E o funcionário da multinacional, pai de família da classe média baixa com três filhos pra criar, ainda foi chamado na sala do presidente da empresa e pensou: “É o fim do mundo!”.

Moisés CouTo

segunda-feira, 13 de junho de 2011

MÉNAGE À TROIS

- Calma, Clidenor.

Falou o espião de casais.

- Calma uma pinoia!! Não é você quem tem uma mulher safada que lhe emprega um par de chifres no meio da testa.

- Acontece.

- Quem é o homem com quem a vagabunda anda saindo?

- Ainda não sei, só vi sua mulher no banco de passageiros de um carro. Não deu pra ver, nem tirar foto de quem guiava.

Clidenor, desapontado, lançou um olhar vazio para baixo e soltou uma rajada de ar. O espião tentou lhe reanimar:

- Mas se você quiser, tiro algumas fotos do homem e lhe trago amanhã.

- Não – Clidenor ergueu-se da cadeira – eu vou com você! Quero ver a cara do cretino junto com a vagabunda.

O espião aceitou.

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A noite, já em casa, Clidenor teve que se segurar para não espancar a mulher até a morte como desejava. Sua mulher era linda, no auge dos vinte e cinco anos, além de cabelos pretos longos e uma coxa hipertrofiada, possuía também, um semblante cínico de quem nada de errado tinha feito horas antes. Clidenor ainda pensou em usar seu revólver, herdado do pai, pela primeira vez contra a mulher, mas o desejo de conhecer quem era o “Ricardão” o consumia. “Será algum conhecido? Amigo?” pensava.

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No outro dia, na hora marcada o espião – o qual me nego a dizer o nome a pedido do mesmo – levou Clidenor ao local, ficaram atrás de uma construção abandonada perto do motel. O espião explicava:

- Todos os dias por volta de 16:30 ela chega no carro. Olha – apontou o espião interrompendo a própria fala – aquele é o carro, ela vem chegando.

Clidenor misturava aflição e curiosidade. Parecia sentir uma faca apunhalando-o pelas costas. Quando o carro parou na porta do motel, Clidenor não se segurou, se levantou e correu e em direção ao carro com o revólver em punho.

Porém, para a surpresa do espião que olhava atento de longe, Clidenor ao chegar no carro e olhar por alguns rápidos segundos para dentro dele, ergueu a cabeça, olhou para o espião, abriu um sorriso e gritou de felicidade:

- É outra mulher!! Minha esposa me trai com outra mulher!

A mulher que guiava o carro era mais bonita que a esposa de Clidenor, cabelos loiros longos, mamas fartas, olhar de uma sensualidade irresistível.

Agora Clidenor estava aliviado. Não era um “Ricardão”, era apenas uma mulher que sua esposa mantinha relações lesbianas. Clidenor até propôs uma “Dança do Maxixe”* com a esposa e sua companheira, mas não foi compreendido.

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Depois disso, Clidenor nem ligava mais, dispensou o espião e permitia que a mulher mantivesse relações com a outra. Insistia em pedir para ir junto, mas ela nunca deixava e Clidenor só ardia de desejo toda madrugada, sonhando em participar daquele “ménage à trois”.  A esposa de Clidenor continuou a sair com a mulher sensual que a levava para o motel em seu próprio carro e o Ricardão que ia de moto e esperava sempre já dentro do quarto do motel a chegada de suas duas amantes. 

Moisés CouTo