Recentemente tive a casa
invadida por um ladrão. Depois dessa noite, não tive mais sono tranquilo, pois uma sensação
de desproteção e desvantagem enquanto tentava dormir, me consumia. Deitado em
busca do sono, sentia-me totalmente impotente. Refletia de mim para mim: “Agora,
qualquer larápio pode entrar aqui e fazer o que bem quiser diante de meu
corpo desacordado”. Sentia-me nu em um campo de batalha troiano. Até os índios
de 1500 estavam protegidos, apesar de nus, das armas que cuspiam fogo dos
europeus. Eu não. Uma casa invadida por um desconhecido significa que o único
lugar seguro do mundo foi sabotado.
Na noite do ocorrido, eu o
vi. Após meus gritos de ordem: “Saia!”, recheado de palavrões chulos que foram
proferidos institivamente, o pulha foi saltando telhados de casas vizinhas,
como um gato irresponsável de noites inquietas. Corri atrás do meliante,
ruborizado e com sede de vingança, disposto a enxotá-lo. Mas não consegui. Prometo
em textos futuros descrever como tudo se sucedeu.
Mas eis o que quero dizer: Noite passada estava eu em uma mesa de bar com os fiéis amigos da sexta feira à
noite. De repente, ele surge, o reconheci a primeira vista, primeiro de costas,
única imagem que tinha do furtador. Não tive resquícios de dúvida e pensei
comigo: “É o larápio!”. Comentei com os amigos, e um mais exaltado o chamou
para perto da mesa, ele se aproximou e eu pude ver seu rosto. Era um adolescente,
raquítico de pequeníssimo porte. Braços e pernas finos. Orelhas grandes os
olhos, sem vida, pareciam não ter foco em nada. Uma fina penugem no buço explicitava sua adolescência. Um queixo proeminente que dava a criaturinha o
famigerado apelido, no diminutivo. Como ele realmente era: Um diminutivo de
homem.
Na presença do ladrão, meu amigo divagava, nem me
lembro do que se tratava. Pra mim e para o larápio, o que realmente acontecia
ali era um encontro que se desenhou e que poderia ser trágico dias atrás.
Ele me reconheceu e eu o
reconheci, e só. Não houve ali, frases, nem sequer uma palavra proferida entre
nós. Eu apenas o olhava e ele com vergonha do comportamento hostil de dias
atrás, com vergonha de ser quem é, olhava pra baixo ou para o horizonte. Reitero,
seu olhar não tinha foco. Aquele é um ser à margem da sociedade. Sem pai, mãe,
irmãos, sem alguém que tenha compaixão dele, que está putrefato pelo
mundo das drogas. Mais do que tudo, um ser sem sociedade.
A situação implicou em um
mundo de conversas mudas. Tiver vontade de fazer-lhe perguntas: “Como ele
entrara na minha casa?” “O que sentiu?” Tive desejo de ameaça-lo: “Se entrar lá
de novo...” Mas não. Não verbalizei absolutamente nada. Enxerguei naquele pobre
menino uma consequência deplorável de uma sociedade que o exclui.
Até que ele foi embora, e
assim como em um mundo selvagem, não trocamos verbos, mas apenas por uma vaga
troca de olhares e a sensação da presença de um perto do outro, ele percebeu
que não deveria mais pisar no meu lar, no meu porto seguro.
Moisés Couto
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