domingo, 30 de outubro de 2011

FRASE

O corpo humano é tão perfeito e complexo que os ditos "normais" eram para ser aqueles que possuíssem um terço de sua fisiologia completa.


Moisés CouTo



sexta-feira, 21 de outubro de 2011

FIM DO MUNDO – FALHA

Era chegado o dia mais esperado do ano de 2012. O dia em que os cálculos ininteligíveis cravavam o fim da espécie humana. O mundo estava em caos, esperando pelo pior. Ao amanhecer tudo parecia tranquilo, a temperatura estava normal, até um pouco mais fresca. Mas a população ignorava as condições ambientais e só pensava no pior. Os bilionários do planeta já estavam indo para à lua. Como iam viver lá? Eu também não sei. Mas iam com a esperança de vida em seus corações aflitos. As avenidas de todas as cidades do mundo estavam iguais. Pareciam grandes formigueiros, a população no meio da rua, tribulação aflorada. Todos só pensavam em sentir o último prazer de suas vidas, por isso, as pessoas começaram a fazer tudo o que tinham vontade, e então, supermercados foram saqueados, lojas depredadas. Mortes e abraços caminham juntos nas ruas engarrafadas por astros imóveis. Houveram-se até estupros e relações homossexuais à luz do dia. Um funcionário de uma multinacional qualquer, cansado de trabalho escravo resolveu se vingar, depois de beijar uma linda mulher ainda saiu gritando: “Diz pro seu marido enfiar a empresa dele no **”. Uns aplaudiam outros choraram, outros nem ligaram. Enquanto isso as polícias militar e civil digladiavam entre si, exibindo suas armas, mas disparando apenas insultos. As igrejas estavam lotadas de seus fiéis corriqueiros e de visitas esperançosas por salvação, os arrependidos dos 45 minutos do segundo tempo. Velhos insanos gritavam em praça pública jargões que ninguém ouvia. Coisa do tipo: “Eu sabia que era hoje!” – acho que era isso, também não prestei atenção. No Senado a situação brigava com a oposição e vice-versa. Os humoristas aproveitavam o fim do mundo para fazer piadinhas do desespero dos outros sem temer processos judiciais subsequentes. Os artistas preferiram viajar para o primeiro mundo, afnal, fim dos tempos ao lado do relógio Big-Ben, Torre Eiffel, ou Estátua da Liberdade seria elegante, mais semelhante com os filmes de Hollywood. Os viciados da cracolândia fizeram o de sempre, consumiram toda a droga possível, como se fosse o último dia de suas vidas. Nos hospitais públicos, não havia mais pacientes, todos queriam morrer em casa longe daquele inferno pré-morte. E assim, cada tribo fazia o que sempre almejou.

Contudo, o dia passou e o mundo não acabou.  E no dia seguinte todos foram trabalhar com a vergonha que lhes forçavam o cabisbaixismo, ninguém tinha coragem de olhar nos olhos do outro. E o funcionário da multinacional, pai de família da classe média baixa com três filhos pra criar, ainda foi chamado na sala do presidente da empresa e pensou: “É o fim do mundo!”.

Moisés CouTo

segunda-feira, 13 de junho de 2011

MÉNAGE À TROIS

- Calma, Clidenor.

Falou o espião de casais.

- Calma uma pinoia!! Não é você quem tem uma mulher safada que lhe emprega um par de chifres no meio da testa.

- Acontece.

- Quem é o homem com quem a vagabunda anda saindo?

- Ainda não sei, só vi sua mulher no banco de passageiros de um carro. Não deu pra ver, nem tirar foto de quem guiava.

Clidenor, desapontado, lançou um olhar vazio para baixo e soltou uma rajada de ar. O espião tentou lhe reanimar:

- Mas se você quiser, tiro algumas fotos do homem e lhe trago amanhã.

- Não – Clidenor ergueu-se da cadeira – eu vou com você! Quero ver a cara do cretino junto com a vagabunda.

O espião aceitou.

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A noite, já em casa, Clidenor teve que se segurar para não espancar a mulher até a morte como desejava. Sua mulher era linda, no auge dos vinte e cinco anos, além de cabelos pretos longos e uma coxa hipertrofiada, possuía também, um semblante cínico de quem nada de errado tinha feito horas antes. Clidenor ainda pensou em usar seu revólver, herdado do pai, pela primeira vez contra a mulher, mas o desejo de conhecer quem era o “Ricardão” o consumia. “Será algum conhecido? Amigo?” pensava.

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No outro dia, na hora marcada o espião – o qual me nego a dizer o nome a pedido do mesmo – levou Clidenor ao local, ficaram atrás de uma construção abandonada perto do motel. O espião explicava:

- Todos os dias por volta de 16:30 ela chega no carro. Olha – apontou o espião interrompendo a própria fala – aquele é o carro, ela vem chegando.

Clidenor misturava aflição e curiosidade. Parecia sentir uma faca apunhalando-o pelas costas. Quando o carro parou na porta do motel, Clidenor não se segurou, se levantou e correu e em direção ao carro com o revólver em punho.

Porém, para a surpresa do espião que olhava atento de longe, Clidenor ao chegar no carro e olhar por alguns rápidos segundos para dentro dele, ergueu a cabeça, olhou para o espião, abriu um sorriso e gritou de felicidade:

- É outra mulher!! Minha esposa me trai com outra mulher!

A mulher que guiava o carro era mais bonita que a esposa de Clidenor, cabelos loiros longos, mamas fartas, olhar de uma sensualidade irresistível.

Agora Clidenor estava aliviado. Não era um “Ricardão”, era apenas uma mulher que sua esposa mantinha relações lesbianas. Clidenor até propôs uma “Dança do Maxixe”* com a esposa e sua companheira, mas não foi compreendido.

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Depois disso, Clidenor nem ligava mais, dispensou o espião e permitia que a mulher mantivesse relações com a outra. Insistia em pedir para ir junto, mas ela nunca deixava e Clidenor só ardia de desejo toda madrugada, sonhando em participar daquele “ménage à trois”.  A esposa de Clidenor continuou a sair com a mulher sensual que a levava para o motel em seu próprio carro e o Ricardão que ia de moto e esperava sempre já dentro do quarto do motel a chegada de suas duas amantes. 

Moisés CouTo

terça-feira, 31 de maio de 2011

O CACHORRO E A MACONHA

- Filho vem cá. Precisamos conversar.

- Sobre o quê?

- Sobre isso.

O pai abre a mão e mostra cinco gramas de maconha amassada já molhada do suor que  transpirara pela palma da mão de nervoso quando viu aquilo dentro do guarda-roupa do filho.

- O que é isso, pai?

- Você sabe muito bem o que é isso, seu maconheiro!

- Isso não é meu, pai!

- Se não é seu, é de quem? Só moramos eu e você nessa casa, isso estava dentro do seu guarda-roupa, só pode ser seu.

- É do cachorro, pai.

- QUÊ?! Quer me fazer de otário, moleque?

- É verdade, pai. O Ralf fuma maconha.

- Você enlouqueceu de vez?

- Estou falando sério!

- Você precisa é de uma lição seu filho da p...

O cachorro adentra a sala da casa com um cigarro de maconha aceso na boca. O pai estupefato, só tem palavras para pedir desculpas ao filho. Depois de alguns minutos de silêncio, ele fala:

- A televisão precisa saber disso.

- Ninguém iria acreditar.


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O pai vai para a cozinha, abre um whisky e tenta acreditar no que acabara de ver. O jovem, aproveitando que está sozinho com o cachorro na sala, retira o cigarro da boca do  animal desamarrando um cordão que ficara escondido debaixo das orelhas de Ralf, desfigurando toda aquela situação inimaginável que ele criara para se livrar do flagrante. Com o pai ainda absorto com a estória, o jovem vai para o quarto e aproveita para usufruir da grande quantidade de maconha que tem e acende vários baseados seguidos. Duas horas e meia depois de muita alucinação, Ralf entra no seu quarto. O jovem, de olhos vermelhos, ri e resolve dá um afago de agradecimento ao bicho de estimação. Mas o cachorro o evita, olha nos seus olhos e fala:

- Vou contar tudo pro seu pai!

O jovem ficou atônito e o efeito da droga passou rapidamente.


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Depois daquele dia o jovem só pensava na promessa que o cachorro garantiu cumprir, olhava para o cachorro com receio, evitava seus olhos, sempre tentava estar por perto quando o pai estava sozinho com o cão, queria saber se realmente Ralf iria contar algo. O cachorro passava perto do jovem, parecia querer intimidar, e ele fazia de tudo para que o cão não se estressasse, colocava refeições fartas, passeio diário e fêmeas no cio sempre que Ralf começava a confundir perna com cadela. Chegou a oferecer sua cama para o animal dormir. Depois de tudo isso, o jovem nunca mais fumou e o cachorro nunca mais falou.

Moisés CouTo


segunda-feira, 2 de maio de 2011

TRONO

Meu nome é Dom Jaime III. O lugar que mais gosto é onde estou agora, meu trono! Só aqui sinto quem, verdadeiramente, sou: um rei. É desse trono que mando aumentar a colheita dos meus campos, diminuir a pesca de lagosta dos meus lagos para que elas possam se reproduzir. É do meu trono que mando vir os pretendentes da minha linda filha princesa. É daqui do meu trono que absolvo os que merecem e condeno os malfeitores que insistem em promover a desordem de meu reino. Henrique, ex Dom Henrique, sofreu em minhas mãos, além de ser enforcado foi apedrejado em praça pública, quem mandou desobedecer minhas ordens? Só no meu trono consigo sentir a realeza na qual gozo minha vida. Deleitosa sensação de alívio quando do meu trono vejo todo o meu reino funcionar sincronizadamente. Meu manto é tão leve que me dá a sensação de estar nu. Sublime sensação de conforto que só meu trono oferece. Porém, infelizmente chegou a hora. A hora que me levanto, dou descarga, saio, e toda a minha fantasia real vai embora junto com meus excrementos, água abaixo, como se eu não precisasse dela. Fora de meu trono sou apenas Jaime, e trabalho em uma multinacional...

- Jaime!

- Oi, senhor!

- O que você está escrevendo ai?

- Nada, são apenas reflexões que acabei de...

- Você não acha pouco ficar meia-hora no banheiro e depois não trabalhar porque está escrevendo reflexões?!

- É porque são para o meu livro, se não escrever agora acabo esquecendo.

- Você está maluco? Isso aqui é uma empresa e não um antro de vagabundagem!

- Sim, senhor!

- Deixe-me ler um pouco disso ai.

- Melhor não, senhor. Não vai querer perder seu tempo com bobagens.

- Ainda estou desfrutando dos meus três minutos de pausa para o café. Ainda há tempo.

- Não vai gostar de ler, são apenas imaginações surreais.

- Então trate de parar com imaginações imbecis e volte ao trabalho, Jaime!

- Sim, senhor Henrique.
Moisés CouTo

segunda-feira, 25 de abril de 2011

UM POUCO DE ATENÇÃO

Domingo 15h30min. A mulher de Epaminondas chega da rua, invade a sala e consegue desviar a atenção do marido da televisão:

- Amor, o que achou? – Matilde da uma viradinha e espera o comentário do marido.

Epaminondas foi pego de surpresa, se concentra, agora o copo de cerveja na mão tem que esperar. Ele observa a mulher dos pés à cabeça, mas não consegue identificar o que há de diferente.

- Você está usando óculos agora?

- Faz seis meses que eu uso óculos, seu grosso! Eu sabia que você não ia reparar meu “cabelo novo”.

- Eu ia falar isso agora.

- Você não me ama mais. Não repara nada em mim! Não me dá a mínima atenção!

- Claro que eu reparei, amor.

- Mentira!

- Como não reparar nesse cabelo castanho que amo!

- Não é castanho, seu ignóbil! Eu pintei de acaju neutro com mexas ruivo leve inteligente. Está vendo? Você não está nem ai pra mim!

- Mas amor, você agora está linda! É o que importa!

- Ah é? Quer dizer que antes eu não era?

- Não, era linda!

- Eu não era linda? Grosso!

- Não!!! Eu coloquei a vírgula. Não, vírgula, você era linda. Esse “não” foi pra negar o que eu tinha dito antes, entendeu?

- Claro que eu entendi. Você além de não me reparar de não me dá atenção ainda não me achava linda!

- Antes você era a mais linda do mundo, meu amor.

- Tá vendo? Antes! Antes é passado, quer dizer que meu cabelo novo está horrível, você preferia o antigo!

- Não é assim!

- Você ainda afirma, cachorro!

- Não! Eu falei sem vírgula! Não, sem vírgula, é assim! NÃO É ASSIM!

- Nosso casamento está indo por agua abaixo porque você não me dá mais atenção, não  repara nada em mim.

- Isso não é verdade Matilde, vem cá me dá um abraço!

Epaminondas coloca o copo de cerveja no banquinho ao lado dos enroladinhos de queijo, se levanta, abre os braços com a esperança de que um abraço acabe com toda aquela discussão, Matilde vira-se vai e para a cozinha com a esperança que ele venha atrás dela para bajular um pouco e acabe com aquela sua sensação de desamor. Porém, a vinheta da televisão toca, são 16h00 vai começar o futebol. Epaminondas senta novamente em sua poltrona e encerra a discussão:

- Aproveita que você está ai e trás uma cerveja, porque essa aqui esquentou!

Moisés CouTo 

terça-feira, 12 de abril de 2011

CARAMELO UM, DOIS, TRÊS

O Zé Irinaldo era um homem de conversas mirabolantes. Histórias loucas saiam de sua boca e ninguém acreditava. Já contara que foi pesquisador de nanotecnologia, chefe de estado na Mongolia, jardineiro da princesa Diana, etc. Mas sua última história com certeza foi a que mais me intrigou. O Zé contou que esteve na Guiana Francesa e visitou a tribo dos Namandauê. Era uma tribo composta de homens de cor parda com cara de índio. Na reunião depois de sacrificar mais um bagre, como de costume, deram inicio a pauta do dia. O mestre dos Namandauê, o patriarca Chinlê Abaulêh, disse que teve mais um sonho que viria a se tornar real. Depois de sonhar com o 11 de setembro, e com as tsunamis o Chinlê Abaulêh sonhara como seria o fim do mundo. Todos estavam atentos na história o Zé Irinaldo que, de repente, calou-se. Acendeu um cigarro e disse que era sigilo o que soube naquela reunião na Guiana Francesa. Quando a turma curiosa insistiu, o Zé apenas destacou que quando perguntassem a qualquer um de nós qual era a senha, deveríamos responder sem titubear: “Caramelo um, dois três”. A turma toda caiu em gargalhada, o Almeidão teve até falta de ar e foi preciso chamar a SAMU. Depois desse dia o Zé Irinaldo se tornou mais sorumbático, não nos contava mais histórias, mas ele não parecia sem inspiração. Certa vez, quando perguntado por que acabara com as histórias, nos contou que o patriarca Chinlê Abaulêh foi até sua casa e ordenou que ele parasse de contar ensinamentos aos jovens. E todos, mais uma vez, zombaram da cara do Zé Irinaldo, eu também não resisti e fiz o mesmo. Mas na hora de dormir, toda aquela história de fim do mundo e senha não saía da minha cabeça. Até que adormeci e sonhei que estava nos Andes peruanos, só eu e o Chinlê Abaulêh sentados no cume de uma montanha, com vários condores sobrevoando nossas cabeças. No sonho o patriarca Abaulêh me alertara com voz mansa a senha que era pra ser dita quando os inimigos chegassem: “Caramelho uno, dós, três! Tienes que decir para los enemigos”. O sotaque portenho só aumentou o clima tenso daquela visão. Acordei assustado, apreensivo. Na manhã seguinte estava com a senha na ponta da língua para caso os inimigos me perguntassem. Enquanto caminhava no centro da cidade, um homem de barba branca que de tão enorme ia até o umbigo estava pedindo esmola, quando me aproximei ele me olhou estranho, sua sobrancelha tentava inutilmente esconder seus olhos azuis e com uma voz rouca ele perguntou:

- Qual a senha?

- Caramelo um, dois, três!! – gritei.

Todos no centro da cidade pararam e olharam em minha direção com sorrisos marotos em seus rostos, inclusive o mendigo. Até que uma mulher magra de cabelo cacheado se aproximou e disse:

- Calma, filho. O guerreiro Zé Irinaldo eliminou todos os inimigos, o mundo não vai mais acabar  estamos sãos e salvos. Essa senha já pode ser esquecida, agora o mundo está em paz graças ao grande guerreiro Zé.

Depois que a mulher se calou, o mendigo - que estava só tirando onda com minha cara -  puxou o grito:

 - Viva o guerreiro Zé Irinaldo, que nos salvou a vida!!

E todos responderam em um só coro:

- Viva!

A única coisa que vinha na minha cabeça era: “A turma não vai acreditar nisso”. 

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Esta é uma história real. Exceto a parte de chamar a SAMU pra socorrer o Almeidão, na realidade foi apenas uma dispneia passageira.

Moisés CouTo